O que esperar de 2018?
Palavra

A Bíblia tem uma resposta. E ela pode não ser a que esperamos.

Aliás, as “bênçãos” prometidas – para o dia seguinte, para o fim do mês ou para o próximo ano – nos livros ou espaços de culto espalhados pelo país, raramente combinam com o texto bíblico.

O profeta Jeremias dá uma pista sobre o que e quem pode esperar alguma coisa: “Eu abençoarei aquele que confia em mim, aquele que tem fé em mim, o Senhor. Ele é como a árvore plantada perto da água, que espalha as suas raízes até o ribeirão. Quando vem o calor, ela não tem medo, pois as suas folhas ficam sempre verdes. Quando não chove, ela não se preocupa; continua dando frutas” (17.7-8).

O primeiro dos 150 salmos descreve o mesmo tipo de pessoa: “O prazer dele está na lei do Senhor, e nessa lei ele medita dia e noite. Essas pessoas são como árvores que crescem na beira de um riacho; elas dão frutas no tempo certo, e as suas folhas não murcham” (versículos 2 e 3).

Bem, não é novidade que cada um de nós se preocupa com o que vai colher amanhã. O “fruto” nos dá visibilidade, melhora as aparências. Mas, nem sempre dizem alguma coisa sobre as raízes. As raízes estão escondidas. E não dependem dos frutos. É exatamente o contrário. O fruto, a quantidade de fruto e a qualidade do fruto dependem da raiz: “Se alguém permanece em mim e eu nele, esse dá muito fruto” (Jo 15.5).

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A participação cristã no direito das mulheres ao voto
Notícia

O sufrágio* universal das mulheres, o direito de votar, foi alcançado por diferentes países em diferentes momentos. Em alguns deles, o sufrágio feminino foi concedido mesmo antes do sufrágio universal, visto que o impedimento do voto se direcionava tanto a homens quanto a mulheres, dependendo de suas classes sociais ou raças. Alguns países concederam o voto a ambos os sexos no mesmo período. Por isso, o movimento do sufrágio feminino é um movimento pelo voto universal da mulher apesar de uma insistente narrativa de que o problema se direcionava somente a elas e a todas elas. O filme As Sufragistas reitera essa leitura seletiva e militante ao não mencionar, por exemplo, que pelo menos 40% dos homens britânicos não tinha o direito ao voto na época dos fatos descritos, ao passo que algumas mulheres já votavam. 

Os estados federados dos Estados Unidos da América outorgaram o voto às mulheres a partir de 1869, no Wyoming, tornando-se exemplo para o resto do mundo. Entretanto, em nível federal, os direitos políticos femininos só foram reconhecidos em 1920. E vale um parêntesis: especialmente as mulheres afro-americanas tiveram que esperar até 1965 para que o Voting Right Act lhes garantisse esse direito em todos os estados federados [1].

Em 1893, a Nova Zelândia se torna o primeiro país a conceder o voto universal às mulheres, atendendo tanto as de origem europeia quanto as mulheres maoris. No século XX, em 1902, a Austrália permite às mulheres votarem e se candidatarem às eleições. E ainda antes da França, Brasil e Uruguai, em 1930, concedem o direito do voto às suas cidadãs. Vale mencionar que o estado do Rio Grande do Norte é o pioneiro a autorizar o voto da mulher ainda antes da lei que valeu para todo o território brasileiro, lá pelos idos de 1928.

Assim, o percurso que leva ao exercício do voto é processual e cheio de controversas, como ocorre na maioria dos regimes de efetivação de direitos civis, sociais, políticos e religiosos instaurados pelas democracias modernas. Uma marca, porém, se destaca em todos eles: o legado protestante por meio da participação ativa da agência cristã em torno das pautas de reformas pelas quais passou o mundo moderno. Especialmente no sufrágio das mulheres, são os cristãos, sobretudo as mulheres cristãs [2], que formam grupos e disseminam experiências (o que o feminismo da moda não irá te contar), a partir, principalmente, dos Estado Unidos [3] e do Reino Unido.

“Consideramos essas verdades como evidentes; que todos os homens e mulheres são criados iguais; que são dotados pelo Criador com certos direitos inalienáveis; que entre estes estão a vida, a liberdade e a busca da felicidade. Para garantir esses direitos, os governos são instituídos, obtendo seus justos poderes pelo consentimento dos governados.” Declaração do Sentimentos, em 1848 (EUA).

Um evento em particular marca o fenômeno mundial e chama a atenção de toda a Europa. É a Convenção de Seneca Falls, reconhecida como a primeira convenção mundial pelos direitos das mulheres. Ela ocorre em 1848, em Seneca Falls, Nova York, em uma pequena Igreja Metodista Wesleyana. O evento teve dois dias de duração e resultou na Declaração de Sentimentos assinada por 68 mulheres e 32 homens [4]. Esse documento é escrito nos moldes da Declaração de Independência do EUA e tem como primeira resolução o “direito inalienável à franquia eletiva” por parte da mulher.

Com a fundação da União de Temperança da Mulher Cristã (WCTU), em 1873 e, posteriormente, a União Internacional de Temperança das Mulheres Cristãs, os grupos passam a operar internacionalmente sob a “missão religiosa pela reforma social”, que incluía trabalhos evangelísticos, assistenciais e a divulgação do sufrágio feminino. O seu internacionalismo forma grupos em diversos países do mundo, sendo que alguns deles permanecem ativos ainda hoje. Nesse caldo é formado, no Reino Unido, em 1897, a União Nacional pelo Sufrágio Feminino, primeiro grupo partidário com representantes no parlamento inglês para a alteração de leis que acabou concedendo o voto também aos homens com mais de 21 anos daquela nação.

Assim, o voto é mais uma das variantes produzidas pelo legado de liberdade aberto pela Reforma Protestante do séc. XVI. É a partir da antropologia reformada que mulheres e homens repensaram sua relação na família (núcleo de cuidado e de resistência ao secularismo), na igreja e na sociedade, principalmente por meio da atribuição do caráter religioso às condições da vida comum. É por causa da sua agenda reformista - e não revolucionária, que mulheres e homens encampam participação ativa e singular em associações que gradativamente saem do serviço social (filantropia), desde sempre realizado pela igreja, para a ação social e política exigida pela complexa estrutura formada pelo Estado moderno. Nesse sentido, não há em qualquer direção como não tributar à cristandade as condições de melhoria de vida das mulheres e dos homens modernos. Mesmo em episódios corriqueiros, como o da concessão do voto. Aqui, também, o resgate do sacerdócio universal de todos os crentes e a reforma das relações promovida pela ideia de igualdade presente nas raízes judaico-cristãs do movimento continuam a ditar o caminho do bem viver para a comunidade humana. Não sem as tensões próprias entre Cristo e cultura, claro. Mas essa é uma outra conversa. E viva a Reforma! Sempre.

• Isabella Passos é formada em Filosofia pela PUC-MG. Mora em Belo Horizonte e congrega na Igreja Esperança.

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A REFORMA PROTESTANTE – 2ª Parte
Palavra

A Reforma na Inglaterra
Vários fatores contribuíram para a introdução da Reforma Protestante na Inglaterra: o anticlericalismo de uma grande parcela do povo e dos governantes, as ideias do pré-reformador João Wycliff, a penetração de ensinos luteranos a partir de 1520, o Novo Testamento traduzido por William Tyndale (1525) e a atuação de refugiados que voltaram de Genebra. Todavia, quem deu o passo decisivo para que a Inglaterra começasse a tornar-se protestante foi o rei Henrique VIII.Henrique VIII (1491-1547) começou a reinar em 1509. Sendo muito católico, em 1521 escreveu um folheto contra Lutero que lhe valeu o título de “defensor da fé.” Era casado com a princesa espanhola Catarina de Aragão, viúva do seu irmão, que não conseguiu dar-lhe um filho varão, mas somente uma filha, Maria. Henrique pediu ao papa Clemente VII que anulasse o seu casamento com Catarina para que pudesse casar-se com Ana Bolena (Anne Boleyn), mas o papa não pode atendê-lo nesse desejo. Uma das principais razões foi o fato de que Catarina era tia do sacro imperador germânico Carlos V. Em 1533, Thomas Cranmer (1489-1556) foi nomeado arcebispo de Cantuária e poucos meses depois declarou nulo o casamento do rei. Em 1534, o parlamento aprovou o Ato de Supremacia, pelo qual a Igreja Católica inglesa desvinculou-se de Roma e o rei foi declarado “Protetor e Único Chefe Supremo da Igreja da Inglaterra”. O bispo John Fisher e o ex-chanceler Thomas More opuseram-se a essas medidas e foram executados (1535); os numerosos mosteiros do país foram extintos e suas propriedades confiscadas (1536-1539). Nos anos seguintes, Henrique ainda teria outras quatro esposas: Jane Seymour, Ana de Cleves, Catarina Howard e Catarina Parr.Henrique morreu na fé católica e foi sucedido no trono por Eduardo VI (1547-1553), o filho que teve com Jane Seymour. Os tutores do jovem rei implantaram a Reforma na Inglaterra e puseram fim às perseguições contra os protestantes. Foram aprovados dois importantes documentos escritos pelo arcebispo Cranmer, o Livro de Oração Comum (1549; revisto em 1552) e os Quarenta e Dois Artigos (1553), uma síntese das teologias luterana e calvinista. Eduardo era doentio e morreu ainda jovem, sendo sucedido por sua irmã Maria Tudor (1553-1558), conhecida como “a sanguinária”, filha de Catarina de Aragão. Maria perseguiu os líderes protestantes e muitos foram levados à fogueira. Os mártires mais famosos foram Hugh Latimer, Nicholas Ridley e Thomas Cranmer. Muitos outros, os chamados “exilados marianos”, foram para Genebra, Estrasburgo e outras cidades protestantes.

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A REFORMA PROTESTANTE – 1ª Parte
Palavra

O contexto social e religioso
Vimos no final da seção anterior alguns elementos que caracterizavam a sociedade européia às vésperas da Reforma. Havia muita violência, baixa expectativa de vida, profundos contrastes sócio-econômicos e um crescente sentimento nacionalista. Havia também muita insatisfação, tanto dos governantes como do povo, em relação à igreja, principalmente ao alto clero e a Roma. Na área espiritual, havia insegurança e ansiedade acerca da salvação em virtude de uma religiosidade baseada em obras, também chamada de religiosidade contábil ou “matemática da salvação” (débitos = pecados; créditos = boas obras).Foi bastante inusitado o episódio mais imediato que desencadeou o protesto de Lutero. Desde meados do século 14, cada novo líder do Sacro Império Romano era escolhido por um colégio eleitoral composto de quatro príncipes e três arcebispos. Em 1517, quando houve a eleição de um novo imperador, um dos três arcebispados eleitorais (o de Mainz ou Mogúncia) estava vago. Uma das famílias nobres que participavam desse processo, os Hohenzollern, resolveu tomar para si esse cargo e assim ter mais um voto no colégio eleitoral. Um jovem da família, Alberto, foi escolhido para ser o novo arcebispo, mas havia dois problemas: ele era leigo e não tinha a idade mínima exigida pela lei canônica para exercer esse ofício. O primeiro problema foi sanado com a sua rápida ordenação ao sacerdócio.Quanto ao impedimento da idade, era necessária uma autorização especial do papa, o que levou a um negócio altamente vantajoso para ambas as partes. A família nobre comprou a autorização do papa Leão X mediante um empréstimo feito junto aos banqueiros Fugger, de Augsburgo. Ao mesmo tempo, o papa autorizou o novo arcebispo Alberto de Brandemburgo a fazer uma venda especial de indulgências, dividindo os rendimentos da seguinte maneira: parte serviria para o pagamento do empréstimo feito pela família e a outra parte iria para as obras da Catedral de São Pedro, em Roma. E assim foi feito. Tão logo foi instalado no seu cargo, Alberto encarregou o dominicano João Tetzel de fazer a venda das indulgências (o perdão das penas temporais do pecado). Quando Tetzel aproximou-se de Wittenberg, Lutero resolveu pronunciar-se sobre o assunto.

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A REFORMA PROTESTANTE DO SÉCULO 16
Palavra

Nos séculos que antecederam a Reforma Protestante, a igreja não vivia em um vácuo, mas sim em um contexto político e social mais amplo com o qual tinha múltiplas interações

ANTECEDENTES – FINAL DA IDADE MÉDIA

Os Estados Nacionais
Nos séculos que antecederam a Reforma Protestante, a igreja não vivia em um vácuo, mas sim em um contexto político e social mais amplo com o qual tinha múltiplas interações. No final da Idade Média, houve o surgimento dos chamados “estados nacionais”, as modernas nações européias, o que representou uma grande ameaça às pretensões do papado. Na Alemanha (Sacro Império Romano), Rudolf von Hapsburg foi eleito imperador em 1273. Em 1356, um documento conhecido como Bula de Ouro determinou que cada novo imperador seria escolhido por sete eleitores (quatro nobres e três arcebispos). Havia descentralização política, isto é, o poder dos príncipes limitava a autoridade do imperador, e forte tensão entre a igreja e o estado.Na França, houve o fortalecimento da monarquia com Filipe IV, o Belo (1285-1314). Esse rei enfrentou com êxito o poder da igreja e dos papas e preparou a França para tornar-se o primeiro estado nacional moderno. Na Inglaterra, o parlamento reuniu-se pela primeira vez em 1295. Esse país teve um grande rei na pessoa de Eduardo I (†1307), que subjugou os nobres e enfrentou com êxito o papa na questão de impostos.

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